sexta-feira, 26 de junho de 2015

Mais um mês distante do Willy

Mais um mês distante do Willy

E lagrimo a ler José Luís Peixoto que grafou aquarelas à cidade do Porto cravada dentro do meu olho existindo como pupila

Escuto os fogos do dia de São João e agrada-me o rio

Avisto um leopardo a perambular pelo calçadão e é só uma tatuagem na perna de alguém como no texto de Caio F

O melhor carro nacional passa do meu lado e acho coisa pouca

A mulher magra até elegante fuma seu cigarro, anda com passinhos de desfile, para em frente ao mercado e bate a cinza na lixeira – observa o céu cinza; trago um pensamento: quiçá o momento equivalha para ela como o mais vivo do dia

O sino da Catedral badala marcando dezoito horas e ainda são dezessete horas e cinquenta e seis minutos


O cheiro da pipoca doce penetra meu olhar salgado, uma saudade dele quase improvável aquece-me o paladar 


Débora Corn

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Para Manoel de Barros


Um céu bateu em mim
Chovi dantes
E os pássaros se molham de luz

É Poesia o poeta
No horizonte ele nuvem, voa

Para enxergar o mar basta um assobio
Da minha infância guardada na caixa de música
Gira o pneu balanço criança

Darei a volta por trás de casa
Pra alumiar o poema de um hortelã


Débora Corn

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Dia do poeta com Fernando Pessoa

Hoje é dia do poeta; creio que minha função mais imensa; penso que preciso ser todas as outras coisas para sê-lo. E se consigo? Não sei. Homenageio meu maior mestre Fernando Pessoa, quem tomo a liberdade de chamar somente Fernando por sentar comigo na minha cadeira favorita em dias de sol e de chuva igualmente.
Lá fora uma imensidão de rosas; a cor no céu: É poesia, muita! Olha como o pássaro preso na gaiola foi posto na janela e canta ainda assim, é poema amarelo de canarinho.
A poesia de Fernando me abordou como uma enxurrada e um rio calmo de mesmo modo. Falar disso é discorrer sobre inúmeras coisas, tudo verdadeiramente imenso na imensidão de ser imenso.
O Mar. Conheci tanto sobre o mar com Fernando: a profundidade da alma portuguesa sua pele cheia de bela melancolia, desassossego, fado.
Tanto já se espiculou sobre ele e os poetas que ele criou, entretanto a andar por Lisboa tudo me pareceu mais simples, mais calmo e profundo. Da minha janela portuguesa a paz que eu merecia.
A subir para o Bairro-Alto o encontro (inusitado) com sua estátua. Já havia tirado fotos Portugal a fora com tudo que fazia referência a ele, ah mas, ali foi como encontrar o Mestre de verdade, até disse algumas palavras em seu ouvido, que terminaram em Obrigada. Com olhos venturosos tive que sair do lado dele, pois havia uma família de turistas húngaros que queriam também tirar suas fotos.
Das pessoas que ele inventou Caeiro é... Não achei palavras e talvez nunca as encontre; sinto cada verso. O Guardador de Rebanhos foi o primeiro livro de Fernando que li e continuo a reler como um mantra, cada vez a alma experimenta diferente. Caeiro me faz perceber distinta a existência. Põe de cabeça para baixo meus conceitos, e até medos.
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, E que o poente é belo e é bela a noite que fica... Assim é e assim seja ...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
Poderia falar de Ode Marítima, Poemas Dramáticos, Mar Português, Livro do Desassossego, Tabacaria, Poema em Linha Reta, Ricardo Reis, (e tanto mais). Sua obra é vento no meu coração, é amor, alma, melancolia, descoberta, é mar imenso mar.
Débora Corn

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Heitor Villa-Lobos me arranja sonhar



Tanto pôr-do-sol na reflexão
Quão acalento: música
Villa-Lobos meu afeto!

Olhos replenos de mar
No inflamar-se do violino
Naufragam barcos no cais

Solidão de onde vens?
O que é para si o amor?
E do que ele te lembra?

Uma pausa: noite
A rever canções
Envolvo-me

Cessa. Enxergue as notas redondilham
Cellos e cellos
Garganta peregrina pelo sopro

Navegar: sentido
Villa-Lobos meu amor
Sentarei para escutar-te

Meu bem, Villa-Lobos
A seus sonhos veemência
O mar eleva-se no meu alento


 Débora Corn





quarta-feira, 28 de maio de 2014

Je t’aime




Tem um mundo magnífico dentro da camisa
Listrada em vermelho e branco
Sorriso grande; derrama carinho, grita:
Acorda-me cedo pra eu beijar-te

Meu coração samba canções para o continente dele
Olhos replenos de versos cativantes
Fazem-me peregrinar a noite por um verbo

(Hei amor, já sinto sua falta!).
Me encanta de flores
Enche-me de dia

Oh amor
Expressões pelas gentis letras  
Anota-me bilhetes na cabeceira
Na geladeira e na cabeça
E nos meus sonhos ele voa

A dançar uma musica francesa à tarde
Sussurrou que não pretendia negociar
Devo confessar que achei bom
Cantei um refrão

E ele mencionou ser feliz




 Débora Corn

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O maravilhoso mundo das aulas teatrais

Neste dia do trabalho estive a pensar novamente no ofício de ser atriz do qual tenho em minh’alma, todavia que já é transformada em meu pensamento, pois nesse momento de meu querer isso vem embalar a base de minha literatura e música.
O teatro é em minha vida um transformador, um furacão de belezas! Dentre elas muitos amigos legítimos. (amigos que têm todo meu amor).
Acredito no teatro em sua essência e ele se dá nessa imensidão nas aulas: ali está toda a gratidão, a amizade, o companheirismo, o amor por este momento de encontro, as descobertas não de um ofício, mas de você mesmo. Um reconhecimento do que você pode fazer, do que você pode ser, asas a imaginação, tudo é possível, sem limites, sem limites...
Vamos navegantes! Meus alunos sabem que podem navegar; e podem fazer muito mais. Podem ser fiéis a sua verdade, podem gostar do que ninguém gosta, podem ser esquisitos, fracos, acima de tudo contar sua fraqueza na roda para a turma e porque se quis, pois se sentiu a vontade, se sentiu um pouquinho que seja livre.
Amo o teatro por tudo que modificou no meu peito, pela essência que não perdi e que encontro SIM somente nas aulas que tive lá no começo onde encontrei amigos já mencionados e hoje nas aulas que tenho o prazer de administrar: a clareza dos olhares, da constante descoberta de si... Isso é teatro! Não as baboseiras que vem depois (isso é mera bobagem!).
Débora Corn

terça-feira, 22 de abril de 2014

Ainda não havia Caetano para mim

Posso ainda ouvir o sacudir das árvores, o vento forte. O nome dele ficou na minha boca e escrito na areia por vários verões. Meu primeiro amor;
– Como é bom ter-te ternura. Pensava. Lembro-me dele com muita intensidade que não sei dizer o que é.
Os cabelos balançavam com a brisa; nasceu um tempo novo em mim no momento que o vi. Conheci-o na sorveteria. Todas já haviam comentado da beleza do moço.
– Com você ele fala! Comentou alguém delas que era apaixonada por ele.
E era simples se apaixonar: olhos verdes cristalinos de navegar, cílios que faziam cócegas no meu nariz, a cor do sol na pele.
Andávamos a noite na praia deserta algumas luzes pra iluminar nossos sonhos, a camiseta dele esquentava minhas costas, o mar banhava os pés suavemente.
Ainda não havia Caetano para mim, todavia existia ele.
Ao levantar eu observava o mar da sacada, o som das ondas semelhava música, o coração o solicitava. Percebia meu peito bater acelerado, achava que era assim mesmo e até hoje creio que é de tal modo que tem que ser.
O primeiro beijo foi aquele descrito no conto de fadas da minha cabeça sonhadora: com as estrelas cintilando, o sal, à noite já bem chegada, o olhar bem aceso, a boca bem boca, ele bem o que ele era eu a ser eu e como eu gostava de constituir eu ao lado dele.
Timidez foi uma página inteira escrita à mão no meu primeiro romance, porém tudo se ajeitava na maresia lúdica da qual compartilhávamos.
Tenho-o no meu pensar tão serenamente, o amando no tempo que passou, a amar a paixão de acordes leves que tive que tivemos. Com saudade talvez de um olhar inocente que ele trazia toda vez. Ele será sempre meu primeiro amor, com infinita poesia, sutileza, com tanto mar...
Débora Corn