quarta-feira, 30 de setembro de 2015

10

SETEMBRO

O ipê dançando num giro romântico
Caiu no asfalto
Não sentiu dor nem gritou
Amarelo repousou na rua
Na triste quarta de calor
Não era primavera visto que o ipê floresce no inverno
Ele aviva a garoa

Desabou num rodopio poético
E quem passava não aplaudiu
Tampouco olhou seu exagero de beleza
Luz na praça aclarava o balé
Mais um girou lentamente até pousar
O restante sacudiu suavemente
A espera do minuto exato


Débora Corn
Poema pág 10 de Pinturas para Claude
Editora Corpos

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Everything that kills me



Fica tudo entre a frieza e a simetria
Montanhas, ruas: bicicletas e lágrima
Entre Dublin e o Rio há apenas um passo
Um voo de asa-delta

Um amor de braços abertos atrás do Cristo Redentor
Que em seguida se arremessa da Pedra da Gávea
Penso entre melancolia e júbilo
Estou em meio ao azul e a altura

O sorriso do transeunte aquece meu olho cansado da maré noturna
As luzes no calçadão calam as estrelas
Um sentimento alheio enquanto os sambistas atravessam a via
Homens jogam vôlei, o mar avança


Débora Corn

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Bem-te-vi



Bem-te-vi no olhar do sabiá
Guardei tua chegada no segundo que não ecoa
Te vi dentro do medo que me esvazia
Bem-te-vis à borda do riacho que o vento balanceia

Vi-te na toada do canário sonolento
Na claridade bruxuleante dos efeitos
Em luminárias coloridas em frente à morada do palhaço

Sabia bem-te-vi cantiga de onda
Vi o trovar do basalto
Bem-me-viu alagar o olho de pôr-do-sol


Débora Corn

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Mais um mês distante do Willy

Mais um mês distante do Willy

E lagrimo a ler José Luís Peixoto que grafou aquarelas à cidade do Porto cravada dentro do meu olho existindo como pupila

Escuto os fogos do dia de São João e agrada-me o rio

Avisto um leopardo a perambular pelo calçadão e é só uma tatuagem na perna de alguém como no texto de Caio F

O melhor carro nacional passa do meu lado e acho coisa pouca

A mulher magra até elegante fuma seu cigarro, anda com passinhos de desfile, para em frente ao mercado e bate a cinza na lixeira – observa o céu cinza; trago um pensamento: quiçá o momento equivalha para ela como o mais vivo do dia

O sino da Catedral badala marcando dezoito horas e ainda são dezessete horas e cinquenta e seis minutos


O cheiro da pipoca doce penetra meu olhar salgado, uma saudade dele quase improvável aquece-me o paladar 


Débora Corn

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Para Manoel de Barros


Um céu bateu em mim
Chovi dantes
E os pássaros se molham de luz

É Poesia o poeta
No horizonte ele nuvem, voa

Para enxergar o mar basta um assobio
Da minha infância guardada na caixa de música
Gira o pneu balanço criança

Darei a volta por trás de casa
Pra alumiar o poema de um hortelã


Débora Corn

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Dia do poeta com Fernando Pessoa

Hoje é dia do poeta; creio que minha função mais imensa; penso que preciso ser todas as outras coisas para sê-lo. E se consigo? Não sei. Homenageio meu maior mestre Fernando Pessoa, quem tomo a liberdade de chamar somente Fernando por sentar comigo na minha cadeira favorita em dias de sol e de chuva igualmente.
Lá fora uma imensidão de rosas; a cor no céu: É poesia, muita! Olha como o pássaro preso na gaiola foi posto na janela e canta ainda assim, é poema amarelo de canarinho.
A poesia de Fernando me abordou como uma enxurrada e um rio calmo de mesmo modo. Falar disso é discorrer sobre inúmeras coisas, tudo verdadeiramente imenso na imensidão de ser imenso.
O Mar. Conheci tanto sobre o mar com Fernando: a profundidade da alma portuguesa sua pele cheia de bela melancolia, desassossego, fado.
Tanto já se espiculou sobre ele e os poetas que ele criou, entretanto a andar por Lisboa tudo me pareceu mais simples, mais calmo e profundo. Da minha janela portuguesa a paz que eu merecia.
A subir para o Bairro-Alto o encontro (inusitado) com sua estátua. Já havia tirado fotos Portugal a fora com tudo que fazia referência a ele, ah mas, ali foi como encontrar o Mestre de verdade, até disse algumas palavras em seu ouvido, que terminaram em Obrigada. Com olhos venturosos tive que sair do lado dele, pois havia uma família de turistas húngaros que queriam também tirar suas fotos.
Das pessoas que ele inventou Caeiro é... Não achei palavras e talvez nunca as encontre; sinto cada verso. O Guardador de Rebanhos foi o primeiro livro de Fernando que li e continuo a reler como um mantra, cada vez a alma experimenta diferente. Caeiro me faz perceber distinta a existência. Põe de cabeça para baixo meus conceitos, e até medos.
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, E que o poente é belo e é bela a noite que fica... Assim é e assim seja ...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
Poderia falar de Ode Marítima, Poemas Dramáticos, Mar Português, Livro do Desassossego, Tabacaria, Poema em Linha Reta, Ricardo Reis, (e tanto mais). Sua obra é vento no meu coração, é amor, alma, melancolia, descoberta, é mar imenso mar.
Débora Corn

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Heitor Villa-Lobos me arranja sonhar



Tanto pôr-do-sol na reflexão
Quão acalento: música
Villa-Lobos meu afeto!

Olhos replenos de mar
No inflamar-se do violino
Naufragam barcos no cais

Solidão de onde vens?
O que é para si o amor?
E do que ele te lembra?

Uma pausa: noite
A rever canções
Envolvo-me

Cessa. Enxergue as notas redondilham
Cellos e cellos
Garganta peregrina pelo sopro

Navegar: sentido
Villa-Lobos meu amor
Sentarei para escutar-te

Meu bem, Villa-Lobos
A seus sonhos veemência
O mar eleva-se no meu alento


 Débora Corn