quarta-feira, 6 de abril de 2016

Com saudade



Eu vivo com saudade. Se não estou com saudade de um, estou do outro, se não do outro, estou do um. Por que não moram todos os amigos no mesmo castelo de areia? Digo amigos de olhos fundos de amor, mãos, balaio de gato, gato, chutney de manga, Drummond, Versailles, Cazuza.
Pera aí, vamos morar no sol?
Muito quente.
Na lua?
Tenho medo de altura.
Desenha pássaros pra mim? Assim como você faz: eles voando.
Sim, isso sim.
Tocou aquela música que você gosta com violino.
Sim, faz dançar meus pensamentos. E... no meio tem piano.
Gosto mais da parte do piano me emociona um bocado. Desenha uma cantiga!
Primeiro os pássaros de peito amarelo e rabo azul, depois faço a cantiga cor de estrela.


Débora Corn

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O dia avança na asa do pássaro



Não há ipês em Londrina
E meu afeto os quer fotografar
As árvores são virtuosas por lá
Mas as pau-d’arco e as violáceas caíram

O dia avança na asa do pássaro
Em minha cidade eles resistem no alto
E forram o chão de cores
A neblina ablui cada ipeúva

Débora Corn

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

10

SETEMBRO

O ipê dançando num giro romântico
Caiu no asfalto
Não sentiu dor nem gritou
Amarelo repousou na rua
Na triste quarta de calor
Não era primavera visto que o ipê floresce no inverno
Ele aviva a garoa

Desabou num rodopio poético
E quem passava não aplaudiu
Tampouco olhou seu exagero de beleza
Luz na praça aclarava o balé
Mais um girou lentamente até pousar
O restante sacudiu suavemente
A espera do minuto exato


Débora Corn
Poema pág 10 de Pinturas para Claude
Editora Corpos

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Everything that kills me



Fica tudo entre a frieza e a simetria
Montanhas, ruas: bicicletas e lágrima
Entre Dublin e o Rio há apenas um passo
Um voo de asa-delta

Um amor de braços abertos atrás do Cristo Redentor
Que em seguida se arremessa da Pedra da Gávea
Penso entre melancolia e júbilo
Estou em meio ao azul e a altura

O sorriso do transeunte aquece meu olho cansado da maré noturna
As luzes no calçadão calam as estrelas
Um sentimento alheio enquanto os sambistas atravessam a via
Homens jogam vôlei, o mar avança


Débora Corn

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Bem-te-vi



Bem-te-vi no olhar do sabiá
Guardei tua chegada no segundo que não ecoa
Te vi dentro do medo que me esvazia
Bem-te-vis à borda do riacho que o vento balanceia

Vi-te na toada do canário sonolento
Na claridade bruxuleante dos efeitos
Em luminárias coloridas em frente à morada do palhaço

Sabia bem-te-vi cantiga de onda
Vi o trovar do basalto
Bem-me-viu alagar o olho de pôr-do-sol


Débora Corn

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Mais um mês distante do Willy

Mais um mês distante do Willy

E lagrimo a ler José Luís Peixoto que grafou aquarelas à cidade do Porto cravada dentro do meu olho existindo como pupila

Escuto os fogos do dia de São João e agrada-me o rio

Avisto um leopardo a perambular pelo calçadão e é só uma tatuagem na perna de alguém como no texto de Caio F

O melhor carro nacional passa do meu lado e acho coisa pouca

A mulher magra até elegante fuma seu cigarro, anda com passinhos de desfile, para em frente ao mercado e bate a cinza na lixeira – observa o céu cinza; trago um pensamento: quiçá o momento equivalha para ela como o mais vivo do dia

O sino da Catedral badala marcando dezoito horas e ainda são dezessete horas e cinquenta e seis minutos


O cheiro da pipoca doce penetra meu olhar salgado, uma saudade dele quase improvável aquece-me o paladar 


Débora Corn

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Para Manoel de Barros


Um céu bateu em mim
Chovi dantes
E os pássaros se molham de luz

É Poesia o poeta
No horizonte ele nuvem, voa

Para enxergar o mar basta um assobio
Da minha infância guardada na caixa de música
Gira o pneu balanço criança

Darei a volta por trás de casa
Pra alumiar o poema de um hortelã


Débora Corn