Débora Corn é autora dos livros: Joni Depi me chamou pra ir ao samba e Pinturas para Claude - Editora Corpos de Portugal.
sábado, 20 de agosto de 2011
Walk Away number 6
Não pude acreditar em que o homem de óculos azuis quase pretos me disse dentro da Maria Fumaça ontem lá pelas oito atravessando o bairro central. O homem meu noivo contou-me que seu cavalo de pernas mais longas não estaria a minha disposição quando meus olhos não quisessem mais encarar as pessoas saídas do imaginário flutuante de sua intrigante cabeça.
Homens são uma esquisitice quando querem. Falam coisas.
Meu vestido vermelho, novo de coleção cara, amassado por causa dos bancos tortos da Maria Fumaça, furou bem na barrinha num prego da poltrona. Nem por isso aquilo que meu noivo me dissera me magoou menos. O que me incomodou não foi a circunstância, mas sim a maneira que ele me alertou sobre o cavalo. Sem nenhum cuidado com meu frágil jeito foi dizendo sem consideração nenhuma com meus olhos, que ele, meu noivo não estaria disposto a buscar o cavalo em minha casa na manhã seguinte. Com tanta reclamação sobre minha chácara ser deslocada, próxima ao retorno das Fileiras, me deu um ódio que queima devagar o corpo, um ódio que dói um pouco os olhos, por quererem chorar. Meu noivo sem tato e audição, foi dizendo tudo sem pensar, ele que não me venha contar as baboseiras sobre seu tio que fuma três cigarros pela manhã, dois após o almoço e antes das sete somente um. Essas bestas cantigas velhas.
Hoje acordei com peso nos olhos feridos. Tinha reuniões com os maridos das mulheres do crochê e cheguei à casa de Verônica com os pés doendo e já tinha atrasado duas horas e dez minutos.
Almocei com Verônica a comida que meu noivo mais gosta. Não liguei para ele, aquele bastardo idiota. Deixei Verônica e fui à aula de violão em casa de Carlos.
Meu noivo que tem uma bochecha lisa e vermelha não havia me ligado até quando cheguei à casa do Cascão para as combinações sobre o piquenique em Vila Nova.
O Bastardo me ligou após a vinda de Ana Luzia à minha chácara. Ao aparelho me falou besteiras em chinês, alemão e russo.
Não falei muito, a mágoa ainda na garganta e o bastardo repetindo coisas. Ele não quis contar as notícias de Sapetão o bairro vizinho, onde ele tinha passado à tarde. Meu noivo tem umas manias que me enlouquecem. Essa de não contar quando eu pergunto interessada sobre os bairros próximos é uma.
Ele saiu de Sapetão as três para as nove. Sei exatamente a hora porque o bastardo enviou-me uma mensagem.
As estradas para o Centro novo não são as melhores. Chovia muito quando meu noivo saiu. Ele dirige mal quando garoa, imagine quando chove forte. Meu noivo perdeu o controle do veículo na estrada dos Farofeiros e caiu na ribanceira quatro nove da virada leste. O bastardo morreu com os sapatos novos de veludo polido.
Walk Away number 6
Débora Corn
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Minha Namorada
Meu poeta eu hoje estou contente
Todo mundo de repente ficou lindo
Ficou lindo de morrer
Eu hoje estou me rindo
Nem eu mesma sei de que
Porque eu recebi
Uma cartinhazinha de você
Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ter
Você tem que me fazer
Um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porque
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois
Minha Namorada
Vinicius de Moraes / Carlos Lyra
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I’ll reckon every word - Sweet words
segunda-feira, 25 de julho de 2011
El breve amor (Queria mais tempo para amar seus olhos)
(¿Por qué, después,
lo que queda de mí
es sólo un anegarse entre las cenizas
sin un adiós, sin nada más que el gesto
de liberar las manos ?)
El breve amor
(Julio Cortazar)
Talvez pensar nele seja somente
Um desejo perdido no espaço...
Às três da manhã um dos pedidos mais lindos!
El breve amor...
Queria mais tempo para amar seus olhos
Infinitas tardes para que os lábios se umedeçam de café
Horas a mais eu queria para encontrar beleza no cinéreo céu
El breve amor, El breve amor
Leva-me até o fim dessa rua com suas mãos claras de confiabilidade
Minutos a mais para ouvir canções, debruçada no seu ombro queria eu
El breve amor...
Desde que seus olhos entraram no meu dia
Os meus atentos olhares insistem em brilhar aquém
Nessas geladas noites cheias de estrelas sem seus versos
El breve amor, El breve amor
Todo tempo para brincarmos com as declarações amorosas
Dos nossos amigos, eu queria
Para ser seu sorriso na noite embalada
Com toda sua elegância de inverno
Com todo seu cheiro de verão
El breve amor, El breve amor
Caí delicadamente desde o primeiro beijo
Na pele macia que deita nas suas bochechas
Sua alegria, alegria sua...
Alegria minha, minha alegria nos teus olhos estão
El breve amor
El breve amor
Breve
Que esse amor seja hoje
Seja amanhã
Seja
El breve amor (Queria mais tempo para amar seus olhos)
Débora Corn
segunda-feira, 4 de julho de 2011
4 de Julho
terça-feira, 21 de junho de 2011
Passo no Paço

para o amado amigo Tuti
Passo no Paço amanhã pra te rever
Olhar de perto seu sorriso
Que me leva a passar no Paço
Passando pelas escadas, pelas salas,
Pelo café vou te encontrar
Com suco na taça somos finos
Como a cidade
Não passa sem percepção esse dia
A tarde passa e a gente no Paço
Em Passos de Liberdade as horas passam
Passam olhares por nós
Passam minutos ao som do piano
E a cheiro de café
Passo aqui só pra te notar
Tomamos café com cheirinho de boas coisinhas
A amizade é um guardanapo bordado
Uma taça transparente que não despedaça
Amizade é uma estória engraçada que se inventa
Olhando a borra de café na xícara
Passa por mim no Paço com cheirinho no pescoço
Garçom! Passa o café no coador e traz pra mesa com toda sua gentileza
Eu e meu amigo temos risadas para a tarde inteira
Passa a mão na gola da minha camiseta
Não passe raiva, passe um sorriso pra pessoa do lado
Assobia uma cantiga no Paço
Passa seu olhar pela sala
Passe na frente do Paço e elogie o canteiro
Colorido de branco e preto
Passo eu, passa você a calça
Passa ele pelo Paço
E amanhã faço uma poesia pra você
Vamos ficar aqui passando por esses segundos
No Paço que a amizade aumenta
Passo no Paço
Débora Corn
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Nós Curitibanos
Nesses dias de céus azuis extremamente belos com o sopro gelado nas ruas, fiquei pensando no charme que é ser curitibano. Com nossos cachecóis e balanços naturais de pernas que varia de curitibano para curitibano. Um conhaque com chocolate para acender os olhos na fria escuridão que chega às seis da tarde. Óh terrinha bonitinha essa nossa Curitiba. Curitibanos, o que somos? Somos os típicos mal-humorados? Não. Depende de qual curitibano você se refere. Curitibanos são raros e dão um sorriso com o coração quando realmente gostam de alguém. É claro, o fechadão também é um tipo de curitibano, mas fechadão existe em qualquer cidade e não falaremos disso agora. Comentaremos sobre o charme sim o charme novamente de ser curitibano. Um charme delicado como luva, elegante como um casaco até os joelhos, amável como cada pedacinho que nossos olhos viajam em Curitiba. As risadas nas esquinas, o passeio nas praças, o sol no parque, um passeio pelo lugar preferido, um café na tardinha, o pôr-do-sol visto lá do alto... A parada para escrever entre a correria, que todos falam, todos comentam e eu sei bem como é. Parada aqui também para ouvir os pássaros e falar de mim de você curitibano.
Ps. Ah, sim, não mencionei eu não sou apreciadora do inverno rigoroso. Meus amigos estão sem cabelo, para não usar aqui o clichê, carecas, de saber, mas estão. Mas, se o verão tem todas suas cores e suas pernocas a mostra. O inverno, eu devo admitir, têm, têm... Seus cobertores macios com cheirinho, com cheirinho também os abraços mais calorosos, têm os olhos brilhantes na noite gelada e negra.
Nós Curitibanos
Débora Corn
segunda-feira, 30 de maio de 2011
É proibido ler Machado de Assis

Estêvão ainda ficou algum tempo encostado à cerca, na esperança de que ela olhasse ou dirigisse os passos para aquele lado; ela porém, passou indiferente, como se nem da existência dele soubera. Estêvão retirou-se dali cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o eco vago e surdo desta interrogação:
- Entro num drama ou saio de uma comédia?
Machado de Assis
A Mão e a Luva
Deveria ser proibido ler Machado de Assis.
Sim! Obrigação moral de todas as livrarias
Terem uma placa ostentando o aviso:
De Assis, Machado, Proibido! Stop!
Não se aproxime, dê a volta pela esquerda.
E nas bibliotecas uma sala de máxima
Proteção para o autor de Dom Casmurro.
Assim, decerto, despertaríamos!
Pois na escola nos obrigam a ler
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Como se nas páginas estivessem
Impressas as mais chatas palavras.
Se a proibição fosse decretada
Desde nossa vida escolar
Nossos olhos não aguentariam
Viver com tanta curiosidade
E beberíamos as letras machadianas proibidamente
Enfurnados num moderno porão
De frases quase apagadas, mas ainda acesas
Por um toco de vela no castiçal
uma pequena homenagem ao grande mestre
É proibido ler Machado de Assis
Débora Corn
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