Débora Corn é autora dos livros: Joni Depi me chamou pra ir ao samba e Pinturas para Claude - Editora Corpos de Portugal.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Ainda não havia Caetano para mim
Posso ainda ouvir o sacudir das árvores, o vento forte.
O nome dele ficou na minha boca e escrito na areia por vários verões. Meu primeiro amor;
– Como é bom ter-te ternura. Pensava.
Lembro-me dele com muita intensidade que não sei dizer o que é.
Os cabelos balançavam com a brisa; nasceu um tempo novo em mim no momento que o vi. Conheci-o na sorveteria.
Todas já haviam comentado da beleza do moço.
– Com você ele fala! Comentou alguém delas que era apaixonada por ele.
E era simples se apaixonar: olhos verdes cristalinos de navegar, cílios que faziam cócegas no meu nariz, a cor do sol na pele.
Andávamos a noite na praia deserta algumas luzes pra iluminar nossos sonhos, a camiseta dele esquentava minhas costas, o mar banhava os pés suavemente.
Ainda não havia Caetano para mim, todavia existia ele.
Ao levantar eu observava o mar da sacada, o som das ondas semelhava música, o coração o solicitava.
Percebia meu peito bater acelerado, achava que era assim mesmo e até hoje creio que é de tal modo que tem que ser.
O primeiro beijo foi aquele descrito no conto de fadas da minha cabeça sonhadora: com as estrelas cintilando, o sal, à noite já bem chegada, o olhar bem aceso, a boca bem boca, ele bem o que ele era eu a ser eu e como eu gostava de constituir eu ao lado dele.
Timidez foi uma página inteira escrita à mão no meu primeiro romance, porém tudo se ajeitava na maresia lúdica da qual compartilhávamos.
Tenho-o no meu pensar tão serenamente, o amando no tempo que passou, a amar a paixão de acordes leves que tive que tivemos. Com saudade talvez de um olhar inocente que ele trazia toda vez. Ele será sempre meu primeiro amor, com infinita poesia, sutileza, com tanto mar...
Débora Corn
sábado, 19 de abril de 2014
Caetanear na sexta-feira santa
No reencontro de hoje permanecemos a nos olhar por um pouco menos de uma hora ou quem sabe um muito mais de trinta minutos: houve sorrisos, goles no vinho, pétalas. Desejar-te desde sempre. Não continha palavras, existia um diálogo profundo.
Coisa linda. Há quatro ou três páscoas nos conhecemos, ele foi anunciado na sexta e apareceu no domingo; minha páscoa havia nitidamente ressuscitado!
Eu tinha a toalha na cabeça, saía do banho, o dia ainda novo, as roupas no varal nublavam a visão para o outro lado, tirei uma peça para pendurar a toalha e ele estava ali no clarear do oposto como quem esperou naquele lugar a vida toda e um plimplim se realizou, um farol na tarde que chegava.
Sem esforço a conversa atravessou a noite e o luar nos cobria de estrelas.
Ele envolvia-se com o cobertor, colocava-o na cabeça e ficava ainda mais encantador. Os olhos eram carregados de emoções uma alegria no meio das flores.
Num dia qualquer tudo expirou.
Desprezei-o. Entretanto ele trazia uma promessa de desejar-me desde sempre. E com atitude ele sincronizou um eterno querer no meu peito. Talvez até uma ideia enlouquecida; conquistou meu respeito, tem meu olhar, realidade de luar, de pétala.
Débora Corn
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Alfama não cheira a fado
Alfama
Amália Rodrigues
Quando Lisboa anoitece
como um veleiro sem velas
Alfama toda parece
Uma casa sem janelas
Aonde o povo arrefece
É numa água-furtada
No espaço roubado à mágoa
Que Alfama fica fechada
Em quatro paredes de água
Quatro paredes de pranto
Quatro muros de ansiedade
Que à noite fazem o canto
Que se acende na cidade
Fechada em seu desencanto
Alfama cheira a saudade
Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão,
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão
Alfama não cheira a fado
Mas não tem outra canção.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Não me distrairei de ti Portugal
Ê coisa boa. Um poema meu recente chamado: Não me distrairei de ti Portugal; entrou para a segunda antologia da Editora Corpos. Editora também do meu livro: Joni Depi me chamou pra ir ao samba
A antologia já se encontra à venda nos seguintes links:
Livro:
http://www.poesiafaclube.com/store/varios-autores-2-antologia-do-poesia-fa-clube
Ebook:
http://www.poesiafaclube.com/store/2-antologia-do-poesia-fa-clube-varios-autores
O livro também está à venda na loja no facebook.
https://www.facebook.com/poesiafaclube?sk=app_519984624691308&app_data=
sábado, 15 de março de 2014
Residencial sem café e janta não se compra na cidade
Que odisseias eu tenho por cima passado; quem inventou a burocracia por certo jamais foi amado.
O beijaria agora.
O correio em greve, o sedex que custa cinquenta pila pra mandar uma folha e não é o primeiro documento a se enviar, declaração:
– Eu declaro, eu ofício. Mude o dia. Por ocasião disso, daquilo. Prezado, senhor, reverendíssimo, caro; caro é quanto custa e não estou nem contabilizando meu tempo.
Ele é esquisito e o beijaria nesse instante, lhe falta beleza, no entanto é análogo a um dos homens mais lindos e cativantes que já passei horas ao lado. Como pode? Não sei. Os mesmos olhos, nariz, pescoço, o conjunto.
Pela manhã o sol pronunciou:
– Olá como vai? Agora a chuva escorre na calçada.
Como não podia deixar de ser assim: Hoje também pensei nele, duas vezes e nem são seis horas. Ainda no meio da burocracia criada pelo mal-amado, – imaginei. Não falo do esdrúxulo que é idêntico ao Deus grego, nem da paixão do passado de olhos verdes e cabelo comprido que encontrei na esquina. Reporto a meu amorzinho que me ama (meu amorzinho que eu amo).
– Ai, como eu sofro! Uns sofrem por amor, vulneráveis, choram na janela fumando seu cigarro, eu padeço com a burocracia.
Débora Corn
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Para ela
– Tira ele do bosque, vai que uma cobra o pica. Disse a mulher para a amiga com um minúsculo cachorro e sorriu amplamente para ela que saía da biblioteca. Ela saiu da casa cheia de livros e realizou que o dia ainda estava radiante com nuvens rosa cor. – Ela adora essas nuvenzinhas.
O vestido dela arregalou os olhos dos cidadãos o dia todo; tinha até gente espiando pelas esquinas e atrás dos balcões. Ela viu no espelho do banheiro da biblioteca que realmente estava bela, percebeu também que a vestimenta estava mais molhada do que pensara ela antes.
Úmido de chuva. Não chovia há semanas; pensava ela que morava no Peru, por ocasião de um amigo peruano ter lhe contado que no Peru não derrama água. À tarde depois de visitar a Itália em pensamento, nuvens cinza escuro reinam na cidade, pingo a pingo a chuva engrossa, ela caminha pela Roma imaginária sendo lavada, uma felicidade! Vinhos romãs. Ela passa por um casal parado na marquise, sorri num convite para serem regados.
Ela saiu de casa cantando uma música que Bethânia canta. Encontrou Seu Antônio na esquina que sorriu e falou coisas boas. O trem saiu na hora marcada; as flores do verão pela janela são líricas que balançam. Borboletas na saia da vitrine, a música que lembra Ouro Preto tocando na loja. O corpo balanceia. Apitos de qualquer pássaro na vendinha. Toda minha casa de campo na vendinha.
– Ai amor, toda nossa casa na vendinha. E da varanda vê-se a chuva que volta toda tardinha pra nos banhar.
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